[aplausos] De forma sincronizada a plateia levanta-se naquele teatro centenário. A nobreza chorava pela tragédia à moda grega, enquanto a multidão ficava inconformada pelo final inesperado. Na verdade, quem sorria mesmo era o dono calvo do teatro, pois fazia tempo que não via aquele recinto tão cheio.
Aos poucos o cenário é desfeito, os artistas festejavam no camarim, e os músicos agradeceram seu quisto maestro. Agora o show fica por conta do faxineiro que levantou cedo para comprar flores para seu amor e doces para seus três filhos, e mesmo assim se esqueceu da comida de seu cachorro chamado Jerry lee. Ele trabalhava naquele teatro mais de vinte e dois anos. E vida encenou-lhe que cultura é algo ideologicamente resignificada. Isso justifica o estado de espírito do faxineiro que escutou toda a peça no subsolo.
Assim o faxineiro caminhava pelo teatro... A poltrona treze, número temido por muitos, era exclusividade de uma pessoa. Ela ficava praticamente no centro do salão, onde acústica em relação ao palco e os músicos entravam em sintonia. É sem dúvida um fato curioso, mas essa poltrona pertencia apenas a uma pessoa como já citado. Seu dono, mesmo ausentes em algumas apresentações tinha direito exclusivo. Assim o faxineiro caminha próximo dela. Ops... O dono dessa poltrona tão elogiada era do escritor da peça que acabara de terminar.
Como de praxes, o escritor esperava toda a plateia retirar-se do teatro para sentir o ambiente e as energias deixa pelo seu público. Ele era muito anormal para os padrões de sua época. Escrevia peças com intuito de retirar o vazio profundo que sentia as todas as noites em seu quarto alugado na alameda dos carvalhos. Seus amigos, se é que o escritor considerava essa intimidade, eram contados nos dedos. Sua vida era desregrada. Para falar um dedo de prosa com ele tinha que ter muita força de vontade. O escritor não acordava cedo, ficava à tarde em bares da vida e na madruga aproveita a brisa e a lua para escrever.
... continua
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